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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Fragmentos de Roma Antiga

Tenho uma turma terça-feira à tarde que é terrível. Quer dizer, a pauta tem 52 alunos, porque o tempo todo entram e saem alunos da turma. Os que estão comigo desde o início do ano contam-se nos dedos. É uma turma de 6.º  ano (1606) de alunos defasados em idade e aprendizagem e muito indisciplinados. Poucos se interessam por qualquer coisa que eu leve e como fico com eles três tempos de cinquenta minutos na terça-feira, as aulas costumam ser bastante cansativas.
Percebi, entretanto, que eles gostam de trabalhos diversificados e essas aulas rendem mais. O problema é como fazer um trabalho com uma turma que não têm nenhum tipo de material? Comprar tudo? Pegar na escola? Às vezes dá certo, às vezes não.

Como estávamos trabalhando com Roma Antiga pensei em propor um trabalho com mosaico. Dividi a turma em pequenos grupos, consegui emprestado umas tesouras e colas na escola e comprei papel colorido, uma cartolina de cada cor. Dividi o papel dando um pedaço de cada cor para cada grupo.

Expliquei que o mosaico é uma técnica muito antiga produzida com pequenas pastilhas de cerâmica ou pedrinhas que são dispostas para formar uma imagem maior. Disse que os romanos antigos, que estamos estudando, gostavam muito da técnica e a usavam para decorar ambientes. Mostrei alguns mosaicos romanos, como os que estão abaixo:

Mosaico do Império Romano em Vichten, em Luxemburgo, representando Tália, a musa da comédia

O poeta romano Virgílio (Século III)
Entreguei alguns desenhos para os grupos retirados desses sites: 




Expliquei que eles deveriam a partir daqueles desenhos produzirem mosaicos. 

O resultado foram esses  mosaicos produzidos pelos meus romanos: 
A lenda da fundação de Roma ganhou novos contornos, pois mesmo que Rômulo e Remo fossem gêmeos, um era branco (ou rosa) e o outro negro (rsrsrs)


 As classes sociais. Repare no chapéu do plebeu!

Um autêntico capacete de soldado romano todo em ouro e prata. 



O Coliseu. 

O gladiador pronto para combater dentro dele. 


Dois modelitos usados pelos soldados romanos. 
 As residências romanas. 

Acho que os trabalhos ficaram muito bons. Acho que eles aprenderam muito com os mosaicos e gostaram de fazer. Pelo menos, achei que se envolveram com o trabalho. 







sábado, 31 de março de 2012

Eu sou Espártaco!

Esses dias estava discutindo com o meu namorado a estética dos recentes filmes que têm saído que tratam de temáticas relacionadas à História Antiga. Desde Troia tenho me decepcionado com esses filmes mirabolantes que prometem mais do que cumprem. Na verdade, eles trazem muito mais ação e efeitos especiais do que propriamente uma história fiel às fontes, mesmo que mitológicas.

Ao mesmo tempo, releituras, digamos, mais "realistas", mais sujas, de filmes clássicos têm aparecido, como foi o caso do recente "Fúria de Titãs", que também não me agradou muito e foi o mote da minha discussão doméstica. Meu namorado me acusa de gostar apenas de filmes "cult". Assumo que Blockbusters nem sempre fazem a minha cabeça e que raramente assisto um filme com o intento de apenas me divertir. Fico sempre observando os figurinos, os elementos estéticos, a verossimilhança... Coisa de historiador!

Entretanto, quando se trata de escolher filmes para passar em sala de aula acabo não escolhendo o que mais agrada. Os alunos devem adorar esses filmes cheios de ação e sangue, entretanto, como em meus primeiros anos na rede municipal só pegava 6.º e 7.º anos não me atrevia a passar filmes que não estivessem de acordo com a faixa etária. Esse ano estou pensando em fazer a experiência com o tal recente  "Fúria de Titãs" (confesso que só tenho em casa aquela versão antigona!) e ver o que acontece.

Há uns dois anos atrás em busca de um filme que pudesse ser mostrado para os meus pequenos gladiadores do 6.º ano, resolvi passar Spartacus. Sim, aquele de 1960, longuíssimo, antiquíssimo e talvez alguns dirão, chatíssimo... Sim, a versão do Stanley Kubrick, que traz o Kirk Douglas no auge da fama. Mas por que cargas d'água, dirão vocês, a escolha desse filme tão diferente dos que os alunos estão acostumados?



Exatamente pelo que já coloquei anteriormente. Os filmes recentes contêm muitas cenas inadequadas para a idade deles e eu resolvi mostrar exatamente uma estética diferente, que contivesse cenas de ação, romance e aventura, mas não cenas de sexo e efeitos mirabolantes.

Obviamente, não passei os 198 minutos (!) do filme.  Fiz uma seleção de algumas cenas nas quais os alunos pudessem identificar como alguém se tornava escravo em Roma, que também mulheres e crianças poderiam ser escravos, como um escravo tornava-se gladiador e principalmente, escolhi mostrar um escravo loiro e de olhos azuis para dissociar a ideia de escravidão da cor da pele. Expliquei que na Antiguidade a escravidão estava associada a outros fatores.

Passei um texto muito legal do livro Espártaco e seus gloriosos gladiadores, da Coleção "Mortos de Fama", que, se não mencionei em outros posts deveria ter mencionado, pois é sensacional. Aliás, deveria fazer um post tratando dessa coleção. Fica a promessa.



O texto fala do motivo de Espártaco ser considerado um "Morto de fama". Eis o trecho selecionado:

 "Ele não era rico, não foi rei, nem imperador, nem inventor, nem nada do tipo. Na real, Espártaco era apenas um escravo. Então por que é que 2 mil anos depois da sua morte seu nome inspirou filmes, livros e revoluções pelo mundo todo? Por que exatamente ele seria um morto de fama?"

Imagem extraída do livro "Espártaco e seus gloriosos gladiadores"

"O.k., ele até que fez umas coisas legais. Mas na verdade ele não só enfrentou os romanos. Espártaco e seu exército de escravos libertos VENCERAM os romanos. Imagine a vergonha das tropas de choque romanas ao serem derrotadas por um bando de escravos sujismundos. Mas o pior de tudo era um gladiador ter liderado um exército de escravos. Para os romanos, os gladiadores eram a coisa mais baixa que podia haver no mundo. 
Os historiadores romanos gostavam de escrever sobre “Grandes Homens”. Escreveram muito sobre imperadores e generais romanos, mas os fatos mais bizarros de suas histórias foram pra debaixo do tapete. Um ou outro escreveu sobre Espártaco e seu exército de escravos... provavelmente
tinham um pouco de vergonha da coisa toda. Salústio foi um dos historiadores que escreveu sobre Espártaco.
Ele era um adolescente quando Espártaco ainda lutava na arena. Para nossa felicidade, Salústio escreveu um
relato detalhado da guerra dos escravos contra os romanos. Para nossa infelicidade, sobrou pouca coisa do que ele escreveu.
 (...)
Salústio descreveu Espártaco como um homem “grande no corpo e na alma” — se você quer ser gladiador e líder de um exército, cá entre nós, é bom ter as duas coisas. Mas Salústio nunca descreveu seu rosto. Na verdade, ninguém conhecia a cara de Espártaco até 1960, quando saiu um filme sobre ele estrelado por um ator chamado Kirk Douglas. Pergunte a qualquer adulto como Espártaco parecia e eles vão dizer que ele tinha cabelo loiro espetado, olhos azuis marcantes e uma covinha bem no meio do queixo. Claro
que a versão de Hollywood não mostrou que ele devia ter cabelos escuros, o nariz quebrado e vários dentes a menos. Esse é o problema de Hollywood: eles faxinam a história para tudo parecer bonitinho."

Imagem extraída do livro "Espártaco e seus gloriosos gladiadores"

Bingo! Chegamos ao filme! E por meio desse texto pude reforçar com os alunos o conceito de fontes históricas, o trabalho do historiador para interpretar relatos muitas vezes esparsos e saber como as coisas talvez aconteceram e toda a construção em torno do filme e da figura de Espártaco como um herói e a escolha de um ator bonitão ajudou. Mesmo sendo um filme antigo, acho que consegui atingir o meu objetivo. Ah, e os alunos gostaram. Juro para vocês! A única dificuldade foi o fato da versão que eu peguei não ter áudio em português, só legendas. Nem todos os alunos de 6.º ano conseguem acompanhar, mas eu fui explicando tudo para eles e eles se mostraram muito interessados.

Espero que vocês tenham gostado também. Vale muito a pena trabalhar com filmes, sejam eles recentes ou antigos, desde que se mostrando para além do filme em si, a construção que se faz em torno do enredo, a escolha da temática, desde que se possa tirar algo dali. Eu gostei muito do resultado.




terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Operação "cavalo de Troia"

Boas férias a todos.

Mais uma vez me afastei por um longo tempo do blog. Hoje volto para contar para vocês como foram os últimos dias na escola, antes das férias. Tivemos uma festa com apresentações dos projetos desenvolvidos pelos professores com suas respectivas turmas. Os nossos pequenos bárbaros da turma 1601 estavam ensaiando com a prof.ª Rosa, de Teatro uma peça sobre a "Guerra de Troia". Na verdade, a peça foi fruto de um trabalho conjunto entre essa professora que vos fala, da disciplina História e os professores de Teatro, Música e Português.
Umas duas semanas antes estive assistindo os ensaios e como vocês podem imaginar, era o caos. Achei que daquele mato não ia sair nem coelho, quanto mais cavalo. No dia, entretanto, saiu tudo perfeito e nós, professores e direção ficamos mais que surpreendidos com a capacidade dos nossos pequenos gregos e troianos.

O sucesso do projeto dependeu da obstinação da professora Rosa, uma das mais comprometidas e conscientes e que eu já encontrei nesses poucos anos de trabalho na Rede Municipal.
O projeto se iniciou, alguns meses antes, com a leitura do livro "Presente de Grego" de Elenice Machado de Almeida (ideia minha!).


O livro é uma adaptação das histórias da Ilíada e da Odisseia para crianças. Outra opção, se a ideia for fazer um teatro é a adaptação da Ruth Rocha, da Odisseia, que costuma existir nas bibliotecas da Rede Municipal.

Nós recomendamos aos alunos que lessem também a "versão"  da Ruth Rocha disponível na nossa sala de leitura.



Em um segundo momento, os alunos assistiram a uma versão editada do filme Troia, aquele com o Brad Pitt mesmo.


 Também assistiram ao vídeo sobre a Grécia Antiga da série "Grandes Civilizações", que conta de maneira didática um pouco da história de Homero.


Por fim, restava a elaboração do roteiro da peça. Em um primeiro momento, o próprio Homero se apresentava dizendo a que veio (contar a história da Guerra de Troia)


(W. nosso Homero)

Aqui, as deusas do Olimpo entram em uma disputa para saber qual delas era a mais bela e coube a Páris, princípe de Troia, decidir essa disputa.


(Nossas deusas, da esqueda para a direita, Hera, Atena e Afrodite, que ganhou a disputa prometendo a Páris a mulher mais bela do mundo, Helena)


(O rapto de B. nossa Helena de Troia)


(Os generais se reunem sob o comando dos reis Menelau e Agamenon e resolvem atacar Troia)


(Surge a ideia do cavalo e olha ele aí)



(Os gregos adentram as muralhas de Troia e derrotam os troianos)



(O canto das mulheres troianas, poema feito pela professora Roberta de Português, contra a guerra)


(Todos juntos agradecem ao som de "O que é o que é, música do Gonzaguinha escolhida pelos alunos junto com o Prof. Marcelo, de Música para representar a paz e a vontade de viver)

Só posso agradecer aos alunos e a Prof.ª Rosa porque a peça foi um sucesso. Aguardem ano que vem novas montagens da nossa companhia.