sexta-feira, 8 de junho de 2012

"A onda" ou o fascismo está em nós.

Quando eu estava ainda no ensino fundamental, no colégio municipal em que estudei, tive um professor de Geografia que era literalmente "o cão chupando manga". Na primeira prova dele apenas cinco pessoas (de uma turma de mais de 30) se safaram de tirar notas vermelhas. Com ele, tive a minha primeira experiência de fazer trabalhos em grupo de verdade, nos quais o grupo tinha que se reunir para pesquisar a fundo um assunto e organizar verdadeiramente os resultados da pesquisa. Obviamente, a maioria dos alunos não gostava dele. Eu não tinha uma opinião formada. Sempre gostei de estudar e sempre gostei de Geografia (não é à toa que enveredei pelo caminho da disciplina irmã, História) e não via problemas em "perder" o meu tempo com os trabalhos e provas. Entretanto, nunca gostei da maneira arrogante com a qual ele lidava com os alunos, como se fossem idiotas.
Eu mesma senti isso na pele uma vez quando tentei participar de uma aula sobre a Alemanha. Tentando mostrar que já tinha ouvido falar sobre o assunto nazismo, mencionei que vira na televisão um filme sobre uma moça alemã que escondeu judeus em casa e assim salvara a vida deles. Eu não me lembro o nome do filme. Meu professor disse secamente que nós não deveríamos ver esses filmes que mostravam alemães salvando a vida de pobres judeus, pois eles eram tendenciosos. Obviamente, naquela época não entendi muito bem o motivo dessa "proibição", entretanto, hoje entendo muito bem.

Naquela época, o filme mais famoso sobre o Holocausto era "A Lista de Schindler", juntando A + B poderíamos pensar, do alto dos nossos 12, 13 anos que todos os alemães fizeram das tripas coração para salvar judeus em apuros e realmente não era essa a ideia. Alguns alemães podem sim ter arriscado a sua vida para esconder judeus em perigo, mas em contrapartida, quantos outros alemães apoiaram o nazismo? Quantos viam os judeus desaparecer sem se questionar para onde estavam indo? Quantos sabiam do extermínio praticado nos campos? Pesquisas recentes mostram que, ao contrário das versões que dizem que as atrocidades nazistas eram desconhecidas da maioria da população, a sociedade alemã tinha acesso a essas informações por meio da imprensa.

 
(Para entrevista com o autor, ver o link: http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/os-alemaes-sabiam-e-aplaudiam-atrocidades-do-nazismo)

Hoje, professora, estava justamente discutindo com outra professora de História esses dias, como os assuntos Segunda Guerra Mundial e Holocausto interessam os alunos do ensino fundamental. Eles questionam e trazem referências anteriores sobre o assunto vista, sobretudo, em filmes. Comentávamos até que esse interesse todo merecia um estudo.
"A Onda" é um filme espetacular justamente por mostrar uma experiência educacional - que a princípio teria tudo para ser bem sucedida para explicar o fenômeno do nazi-fascismo. O objetivo era mostrar na prática aos alunos como funciona o mecanismo de envolvimento dos regimes totalitários e evidenciar como esses regimes buscavam não somente subjugar as pessoas, mas, sobretudo, conquistá-las.
O filme é baseado em uma experiência ocorrida na Califórnia em 1967. Tal experiência já tinha dado origem a livros e a um documentário. Ganha  agora, a versão do cinema alemão, que vem produzindo filmes espetaculares para reflexão sobre fenômenos da história recente, tais como "Adeus Lênin" e "A vida dos outros".



Ao tentar explicar para seus alunos o funcionamento de um regime autocrático, o professor de ensino médio Rainer Wegner (Jürgen Vogel) é questionado por eles sobre a possibilidade de um regime como o nazista ascender nos dias de hoje. Rainer propõe uma experiência de forte cunho teatral: cria um grupo e torna-se o líder dele. Logo, o grupo ganha um nome "A Onda", uniformes, um slogan e é aí que as coisas começam a fugir do controle. Os alunos, envolvidos com "A Onda" começam a praticar atos de vandalismo, bem como agressões e coação aos alunos que não pertencem ao grupo. Quando o professor tenta encerrar a experiência, é tarde demais.


É um filme que vale a pena ser assistido por professores juntamente com seus alunos, ou não e suscita questões filosóficas acerca da necessidade de pertencimento, a tendência humana a abrir mão da liberdade em prol de uma causa e a intolerância, assunto tão em voga nos dias de hoje em diversos países, dentre eles o Brasil.
Por fim, deixo o discurso do professor Rainer Wegner, proferido no filme como fonte de reflexão:

“Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.

A questão permanece: o fascismo está mesmo em nós?




sábado, 31 de março de 2012

Eu sou Espártaco!

Esses dias estava discutindo com o meu namorado a estética dos recentes filmes que têm saído que tratam de temáticas relacionadas à História Antiga. Desde Troia tenho me decepcionado com esses filmes mirabolantes que prometem mais do que cumprem. Na verdade, eles trazem muito mais ação e efeitos especiais do que propriamente uma história fiel às fontes, mesmo que mitológicas.

Ao mesmo tempo, releituras, digamos, mais "realistas", mais sujas, de filmes clássicos têm aparecido, como foi o caso do recente "Fúria de Titãs", que também não me agradou muito e foi o mote da minha discussão doméstica. Meu namorado me acusa de gostar apenas de filmes "cult". Assumo que Blockbusters nem sempre fazem a minha cabeça e que raramente assisto um filme com o intento de apenas me divertir. Fico sempre observando os figurinos, os elementos estéticos, a verossimilhança... Coisa de historiador!

Entretanto, quando se trata de escolher filmes para passar em sala de aula acabo não escolhendo o que mais agrada. Os alunos devem adorar esses filmes cheios de ação e sangue, entretanto, como em meus primeiros anos na rede municipal só pegava 6.º e 7.º anos não me atrevia a passar filmes que não estivessem de acordo com a faixa etária. Esse ano estou pensando em fazer a experiência com o tal recente  "Fúria de Titãs" (confesso que só tenho em casa aquela versão antigona!) e ver o que acontece.

Há uns dois anos atrás em busca de um filme que pudesse ser mostrado para os meus pequenos gladiadores do 6.º ano, resolvi passar Spartacus. Sim, aquele de 1960, longuíssimo, antiquíssimo e talvez alguns dirão, chatíssimo... Sim, a versão do Stanley Kubrick, que traz o Kirk Douglas no auge da fama. Mas por que cargas d'água, dirão vocês, a escolha desse filme tão diferente dos que os alunos estão acostumados?



Exatamente pelo que já coloquei anteriormente. Os filmes recentes contêm muitas cenas inadequadas para a idade deles e eu resolvi mostrar exatamente uma estética diferente, que contivesse cenas de ação, romance e aventura, mas não cenas de sexo e efeitos mirabolantes.

Obviamente, não passei os 198 minutos (!) do filme.  Fiz uma seleção de algumas cenas nas quais os alunos pudessem identificar como alguém se tornava escravo em Roma, que também mulheres e crianças poderiam ser escravos, como um escravo tornava-se gladiador e principalmente, escolhi mostrar um escravo loiro e de olhos azuis para dissociar a ideia de escravidão da cor da pele. Expliquei que na Antiguidade a escravidão estava associada a outros fatores.

Passei um texto muito legal do livro Espártaco e seus gloriosos gladiadores, da Coleção "Mortos de Fama", que, se não mencionei em outros posts deveria ter mencionado, pois é sensacional. Aliás, deveria fazer um post tratando dessa coleção. Fica a promessa.



O texto fala do motivo de Espártaco ser considerado um "Morto de fama". Eis o trecho selecionado:

 "Ele não era rico, não foi rei, nem imperador, nem inventor, nem nada do tipo. Na real, Espártaco era apenas um escravo. Então por que é que 2 mil anos depois da sua morte seu nome inspirou filmes, livros e revoluções pelo mundo todo? Por que exatamente ele seria um morto de fama?"

Imagem extraída do livro "Espártaco e seus gloriosos gladiadores"

"O.k., ele até que fez umas coisas legais. Mas na verdade ele não só enfrentou os romanos. Espártaco e seu exército de escravos libertos VENCERAM os romanos. Imagine a vergonha das tropas de choque romanas ao serem derrotadas por um bando de escravos sujismundos. Mas o pior de tudo era um gladiador ter liderado um exército de escravos. Para os romanos, os gladiadores eram a coisa mais baixa que podia haver no mundo. 
Os historiadores romanos gostavam de escrever sobre “Grandes Homens”. Escreveram muito sobre imperadores e generais romanos, mas os fatos mais bizarros de suas histórias foram pra debaixo do tapete. Um ou outro escreveu sobre Espártaco e seu exército de escravos... provavelmente
tinham um pouco de vergonha da coisa toda. Salústio foi um dos historiadores que escreveu sobre Espártaco.
Ele era um adolescente quando Espártaco ainda lutava na arena. Para nossa felicidade, Salústio escreveu um
relato detalhado da guerra dos escravos contra os romanos. Para nossa infelicidade, sobrou pouca coisa do que ele escreveu.
 (...)
Salústio descreveu Espártaco como um homem “grande no corpo e na alma” — se você quer ser gladiador e líder de um exército, cá entre nós, é bom ter as duas coisas. Mas Salústio nunca descreveu seu rosto. Na verdade, ninguém conhecia a cara de Espártaco até 1960, quando saiu um filme sobre ele estrelado por um ator chamado Kirk Douglas. Pergunte a qualquer adulto como Espártaco parecia e eles vão dizer que ele tinha cabelo loiro espetado, olhos azuis marcantes e uma covinha bem no meio do queixo. Claro
que a versão de Hollywood não mostrou que ele devia ter cabelos escuros, o nariz quebrado e vários dentes a menos. Esse é o problema de Hollywood: eles faxinam a história para tudo parecer bonitinho."

Imagem extraída do livro "Espártaco e seus gloriosos gladiadores"

Bingo! Chegamos ao filme! E por meio desse texto pude reforçar com os alunos o conceito de fontes históricas, o trabalho do historiador para interpretar relatos muitas vezes esparsos e saber como as coisas talvez aconteceram e toda a construção em torno do filme e da figura de Espártaco como um herói e a escolha de um ator bonitão ajudou. Mesmo sendo um filme antigo, acho que consegui atingir o meu objetivo. Ah, e os alunos gostaram. Juro para vocês! A única dificuldade foi o fato da versão que eu peguei não ter áudio em português, só legendas. Nem todos os alunos de 6.º ano conseguem acompanhar, mas eu fui explicando tudo para eles e eles se mostraram muito interessados.

Espero que vocês tenham gostado também. Vale muito a pena trabalhar com filmes, sejam eles recentes ou antigos, desde que se mostrando para além do filme em si, a construção que se faz em torno do enredo, a escolha da temática, desde que se possa tirar algo dali. Eu gostei muito do resultado.




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Aqui começa nossa História, ou melhor, nossa pré-história.


Desculpem, mas mesmo nas férias não consegui manter uma regularidade para escrever no blog. Essa professora que vos fala não consegue viver sem acumular projetos e nas férias resolveu dar início à operação "Saiam das ruas" e entrar na Autoescola em busca de uma licença para dirigir automóveis. Estou amargando as horas a fio de aulas teóricas, mas prometo avisar assim que iniciar as aulas práticas, a fim de que os meus poucos leitores não saiam nas ruas (quem avisa, amigo é) nos horários marcados para as aulas.

Brincadeiras à parte, estou aqui hoje para contar para vocês que ano passado fiz uma atividade com uma turma de 6.º ano sobre Pré-História que deu muito certo. Semana passada, quando voltei à escola e resolvi esvaziar o meu armário, a fim de deixá-lo pronto para mais um ano letivo, me deparei com os trabalhos que tinha guardado para uma futura exposição. Embora a ideia da exposição não tenha vingado, resolvi expor a vocês os trabalhos dos meus pequenos homens e mulheres das cavernas.

O trabalho foi realizado no 6.º ano. Me incomodava sobremaneira abordar Pré-História com crianças de 11, 12 anos falando os dificílimos termos Paleolítico, Neolítico, Idade dos Metais. Qualquer crianças nessa idade- pudera - têm uma compreensão muito limitada desse passado tão longínquo.

A princípio, pensei até em usar o desenho "Os Flintstones" ou as historinhas do Piteco, mas me dei conta de que não ajudariam porque  mostran uma Pré-História com todas as comodidades do mundo moderno (inclusive misturando dinossauros no bolo, o que torna mais difícil ainda para os alunos situarem as coisas no tempo). Se a ideia era situá-los, ao mesmo tempo dando dimensão da precariedade com a qual conviveu a espécie humana nesses primeiros tempos, teria que bolar outra coisa. A chave, para mim, seria trabalhar nomadismo e sedentarismo, ir aos poucos desvendando elementos do cotidiano, o que esses homens e mulheres pré-históricos faziam para se alimentar, como se vestiam, como se abrigavam do frio.

Tenho um joguinho de tabuleiro que faz parte do livro "Pedagogia da Alegria", que me foi sugerido  pela professora Andrea Gugelmin (grata!) há algum tempo atrás. O livro é da autoria da professora Tânia Dias Queiroz e possui diversas outras atividades lúdicas para se trabalhar com conteúdos relacionados ao ensino de História.



 Apesar de servir para introduzir, a atividade de trilha não dava conta de explicar tudo o que eu gostaria. Assim, desenvolvi um trabalho em cima dos conceitos de agricultura e pecuária, buscando sempre enfatizar porque essas duas atividades foram importantes para o desenvolvimento da humanidade, para sua sedentarização (palavra difícil, mas eu acho que eles entenderam) e para o surgimento das primeiras aldeias.

Paralelamente a isso, expliquei o que eram as pinturas rupestres, as marcas deixadas pelos homens das cavernas na época em que eles viveram. Como apoio, usei o vídeo do Discovery Channel "Homem Pré-Histórico: vivendo entre as feras".



Outra opção seria usar um desenho recentemente me mandado pela colega Fátima Veiga, sobre as Aventuras de Uhug na Serra da Capivara. É interessante para mostrar para os alunos que no Brasil também tivemos pré-história e a dificuldade de sobrevivência nesse período.  A dublagem é a voz do Tadeu Melo, ator que emprestou a voz ao personagem Syd na animação "A Era do Gelo", conhecida da marioria dos alunos.


Uma outra opção, ainda, é o filme "A Guerra do Fogo", tomando o cuidado de adaptá-lo porque possui cenas inadequadas para a faixa etária.
 
Buscamos juntos levantar hipóteses para o fato daqueles homens deixarem suas marcas nas cavernas. Por que? Qual a finalidade? O que eles retratavam? Os alunos fizeram uma pesquisa buscando responder a essas questões. 

Por fim, devo agradecer à diretora da minha escola Denise Castanheira pela ideia de os alunos desenharem em lixas imitando a parede de uma caverna. Nesse desenho, os alunos deveriam fazer uma pintura rupestre como se fossem homens das cavernas. Por fim, faríamos uma exposição e enfeitaríamos a nossa caverna, o mural das salas 1601 e 1602 com as pinturas deles e os resultados de suas pesquisas. Nesse desenho, eles deveriam respeitar as atividades econômicas que tínhamos visto antes para os períodos Paleolítico (caça/coleta/pesca) e Neolítico (agricultura e pecuária).


A atividade, na minha opinião, foi um sucesso. Eis o resultado:




terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Operação "cavalo de Troia"

Boas férias a todos.

Mais uma vez me afastei por um longo tempo do blog. Hoje volto para contar para vocês como foram os últimos dias na escola, antes das férias. Tivemos uma festa com apresentações dos projetos desenvolvidos pelos professores com suas respectivas turmas. Os nossos pequenos bárbaros da turma 1601 estavam ensaiando com a prof.ª Rosa, de Teatro uma peça sobre a "Guerra de Troia". Na verdade, a peça foi fruto de um trabalho conjunto entre essa professora que vos fala, da disciplina História e os professores de Teatro, Música e Português.
Umas duas semanas antes estive assistindo os ensaios e como vocês podem imaginar, era o caos. Achei que daquele mato não ia sair nem coelho, quanto mais cavalo. No dia, entretanto, saiu tudo perfeito e nós, professores e direção ficamos mais que surpreendidos com a capacidade dos nossos pequenos gregos e troianos.

O sucesso do projeto dependeu da obstinação da professora Rosa, uma das mais comprometidas e conscientes e que eu já encontrei nesses poucos anos de trabalho na Rede Municipal.
O projeto se iniciou, alguns meses antes, com a leitura do livro "Presente de Grego" de Elenice Machado de Almeida (ideia minha!).


O livro é uma adaptação das histórias da Ilíada e da Odisseia para crianças. Outra opção, se a ideia for fazer um teatro é a adaptação da Ruth Rocha, da Odisseia, que costuma existir nas bibliotecas da Rede Municipal.

Nós recomendamos aos alunos que lessem também a "versão"  da Ruth Rocha disponível na nossa sala de leitura.



Em um segundo momento, os alunos assistiram a uma versão editada do filme Troia, aquele com o Brad Pitt mesmo.


 Também assistiram ao vídeo sobre a Grécia Antiga da série "Grandes Civilizações", que conta de maneira didática um pouco da história de Homero.


Por fim, restava a elaboração do roteiro da peça. Em um primeiro momento, o próprio Homero se apresentava dizendo a que veio (contar a história da Guerra de Troia)


(W. nosso Homero)

Aqui, as deusas do Olimpo entram em uma disputa para saber qual delas era a mais bela e coube a Páris, princípe de Troia, decidir essa disputa.


(Nossas deusas, da esqueda para a direita, Hera, Atena e Afrodite, que ganhou a disputa prometendo a Páris a mulher mais bela do mundo, Helena)


(O rapto de B. nossa Helena de Troia)


(Os generais se reunem sob o comando dos reis Menelau e Agamenon e resolvem atacar Troia)


(Surge a ideia do cavalo e olha ele aí)



(Os gregos adentram as muralhas de Troia e derrotam os troianos)



(O canto das mulheres troianas, poema feito pela professora Roberta de Português, contra a guerra)


(Todos juntos agradecem ao som de "O que é o que é, música do Gonzaguinha escolhida pelos alunos junto com o Prof. Marcelo, de Música para representar a paz e a vontade de viver)

Só posso agradecer aos alunos e a Prof.ª Rosa porque a peça foi um sucesso. Aguardem ano que vem novas montagens da nossa companhia.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sobre estágio e papelices

Primeiramente, acho que devo pedir desculpas pelo sumiço do blog. Desde setembro que não escrevo e é claro que essa ausência teve algum motivo. Prometo organizar o material que tenho para fazer postagens durante as férias.

Estive envolvida com diversos projetos que não tinham a ver com o magistério e com várias obrigações que tinham a ver. Vivi esse semestre, pela primeira vez, a experiência de ser professora do ensino superior... em São Gonçalo. Sim, longe, eu sei, mas se é isso que eu quero fazer da vida, em algum lugar eu tenho que começar.

Fui chamada para ser professora da disciplina Estágio Supervisionado II, que tem por objetivo proporcionar aos alunos do curso de História, futuros professores, vivências significativas e aproximá-los, na medida do possível, da realidade da sala de aula do ensino fundamental. Até aí tudo bem. Não vou questionar a validade do estágio porque o meu, no CAp da UFRJ, como eu já salientei em outras postagens, me proporcionou experiências maravilhosas.

Eu mesma estou em sala de aula, eu mesma sou professora do ensino fundamental. Me sentia capaz de orientar essa turma de futuros estagiários. Entretanto, o fato de eu ter assumido a disciplina em setembro me fez correr contra o tempo para pressionar os alunos para que buscassem logo uma sala de aula para realizar o estágio e professores que se dispusessem a recebê-los e a integrá-los naquele ambiente "entrópico" que é uma escola de ensino fundamental antes de término do ano. Em setembro isso foi desafiador. Sabemos que existem professores que nem sempre gostam de receber estagiários. Alguns se sentem intimidados - porque não dizer, ameaçados - em ter o seu trabalho observado e avaliado por alguém estranho ao cotidiano da escola.

Os estagiários, obviamente estranham no início e acharam tudo aquilo o caos. O ambiente da escola é mesmo assustador para o observador externo. Eu mesma fiquei assustada e no meu primeiro dia como professora achei que nunca mais teria coragem de entrar em uma sala de aula. Os estagiários também se desestimulam ao perceber o desinteresse dos alunos, sua falta de atenção em sala, sua negligência para com as aulas e tarefas. Bem, entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos (três desistências em uma turma de catorze estagiários).




Eles observaram o trabalho dos professores em escolas públicas da rede municipal e estadual de São Gonçalo e todos conseguiram cumprir o rito de passagem de dar suas aulas ao fim do estágio.

Eu, como professora de Estágio II, tive que ir a São Gonçalo acompanhar 11 aulas diferentes. Foi ótimo porque conheci vários professores, com diferentes histórias, que estão em sala há muito mais tempo que eu e que desenvolveram, de acordo com o seu estilo, diferentes formas de se relacionar com os alunos.

Esses professores, cada um à sua maneira, apesar de todas as dificuldades, encontram formas de se motivar diariamente para estar em sala, para interagir com os alunos, para proporcionar a alunos de escolas públicas dos rincões de São Gonçalo algo mais do que o conteúdo de História. Duas em especial me marcaram.

A professora M. se dispôs a receber três dos meus estagiários e desde o primeiro momento, por meio do relato deles, pude perceber que estava diante de alguém extremamente comprometido com o seu trabalho. Dando aulas há 20 anos na mesma escola, ela foi capaz de motivar e encantar os meus alunos-professores porque se preocupava com o desenvolvimento e a formação dos seus alunos. Ela, segundo relato dos meus estagiários sempre buscava conhecer as dificuldades de seus alunos, ao mesmo tempo em que exige que eles mantenham uma atitude positiva na relação com os outros. Realmente, em sua sala de aula não vi nenhuma falta de respeito e acreditem, conseguir que os alunos se respeitem é um grande feito para professores que trabalham na rede pública. Os alunos não vêem palavrões, xingamentos ou mesmo agressões físicas, como falta de respeito.




Por outro lado, a professora L. também me surpreendeu. Quando fui acompanhar a aula de um dos meus estagiários, pude perceber que ao fim da aula algumas alunas e ex-alunas da escola esperavam para falar com ela. Uma dessas ex-alunas, pude perceber, estava grávida.

A professora L. me disse que elas estavam esperando para falar com ela porque ela era uma pessoa de confiança, e definiu a sala de aula como um "grande consultório psicanalítico". Ela disse que ia atrás de alguns alunos seus na comunidade quando percebia que eles tinham se envolvido com o tráfico local. Achei fantástica a confiança e proximidade que essa professora estabeleceu com os seus alunos.




Agora, voltemos à realidade da minha escola. Essa semana estamos em Conselho de Classe. Uma correria para corrigir todos trabalhos e provas e fechar notas. Diante de tudo isso, fico me perguntando: de que adiantam tantas papelices se números para garantir índices de aprovação podem e devem ser facilmente manipuláveis?








Me senti idiota quando no início do ano letivo, ao diagnosticar, juntamente com as professoras de Língua Portuguesa e Ciências que dois dos nossos alunos de 6.º ano (5.ª série) eram completamente analfabetos tive que ouvir que eles não poderiam ir para um projeto de alfabetização por não estarem fora da faixa etária. Eles permaneceram onde estavam. Peraí, já não basta eles terem chegado ao 6.º ano sem saber ler? Eles ainda teriam que ser reprovados, para ficar fora da faixa e aí terem a chance de talvez serem alfabetizados?




Me sinto idiota de ver passar de ano alunos que não têm a mínima condição de estar na série em que estão e ainda assim passarão para a série seguinte.

Gosto realmente de ser professora, mas não gosto da burocracia e muito menos de ter que mascarar resultados que eu sei que não condizem minimamente com a realidade. Talvez fosse melhor que eu fizesse um concurso para um órgão qualquer e fosse carimbar papel em alguma repartição pública obscura.




Só mesmo experiências como as das professoras acima é que me fazem ainda ter alguma esperança. Se tem uma coisa que eu aprendi ao longo de alguns anos de análise é que para mudar devemos reconhecer as falhas que temos e não empurrá-las para debaixo do tapete. Enquanto as Secretarias de Educação continuarem ignorando as experiências de quem convive diariamente com os alunos e pressionando-os a mascarar os problemas inventando índices, não vamos a lugar algum.


Aliás, vamos sim, cada vez mais, para o fundo do poço.


PS: Prometo que nas próximas postagens não quebrarei o firme propósito de não-reclamação que orientou a criação desse blog.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

E as angolanas são bonitas?

Como eu venho contando para vocês, estou adentrando com o meu sétimo ano a temática África. Melhor seria dizer, Áfricas porque quanto mais eu estudo, mais eu descubro e me apaixono por este universo, por este continente. A apostila da prefeitura tem me ajudado. Quem tiver curiosidade pode dar uma olhada nela aqui.

Para introduzir o tema, eu resolvi fazer com os alunos a dinâmica sugerida pelo programa "A cor da cultura", que consiste em classificar a África como sinônimo de desenvolvimento ou atraso, saúde ou doença, riqueza ou pobreza, estabilidade política ou instabilidade política, tribo ou civilização.

Levei o mapa político da África, distribuí esses pares palavras e pedi para que os alunos, em grupos, escolhessem uma classificação em cada um dos pares. Coloquei as classificações negativas em vermelho e as positivas em azul. O resultado não foi outro. Os grupos, sem exceção,  escolheram aspectos negativos. Alguns não sabiam o que era estabilidade e instabilidade política, mas assim que eu explicava eles diziam na mesma hora que só podia ser instabilidade.


Ao serem questionados sobre o motivo de suas escolhas, a maioria dos alunos disse que é isso que a televisão mostra. Alguns insistiam em dizer que a África era um país. Aí mostrei o mapa e disse que era um continente, com muitos países. Perguntei se eles saberiam me dizer o nome de três desses países sem olhar no mapa. Como eu desconfiava, a maioria não soube.

Fiz a experiência para confirmar algo que eu já sabia, que não ensinamos nada sobre África e que não ensinamos porque sabemos pouco ou não queremos saber.

Disse aos alunos que o que a TV mostra não é mentira. As guerras, a fome, a pobreza, tudo está lá, mas pedi para eles, enquanto moradores de uma favela para imaginar o que as pessoas pensam sobre moradores de favela. Será que a imagem que passa na TV corresponde a toda a realidade, a toda a verdade? Muitos disseram que não. Que às vezes, a TV mostra apenas a pobreza, os problemas. Chegaram onde eu queria ir.

Com a África, eu disse, também é assim. Embora as pessoas trabalhem, se divirtam, estudem, vivam, enfim, a TV insiste em mostrar apenas os aspectos negativos.

Pensei muito em um vídeo que descobri há uns dias justamente enquanto preparava essa aula. O vídeo se chama "O perigo de uma única história" e é a palestra de Chimamanda Adichie, uma jovem escritora nigeriana (linda e muito bem-humorada), filha de um professor universitário e de uma secretária. A palestra fala de estereótipo e de como enxergar somente através dos estereótipos pode ser redutor. A escritora fala dos males de acreditar em uma única história, de contar às crianças um única história, de enxergar os outros de uma forma que reduz a uma apenas uma característica ou a um conjunto de características quase sempre negativas.




É difícil evitar rótulos, porque nos definimos sempre em relação ao que consideramos como "outro". O perigo é quando tornamos aquele "rótulo", a única história possível sobre aquele "outro". Uma história definitiva, como diz Chimamanda. Isso se torna extremamente perigoso quando se trata de África. Se torna perigoso porque, segundo Chimamanda, não é que os estereótipos sejam mentira, mas eles são incompletos e acabam por roubar a dignidade das pessoas e enfatiza as diferenças, em detrimento das semelhanças,.

No caso brasileiro, se torna perigoso, quando nós  não vemos a África como parte de nós, mas como o "outro" em relação ao qual eu quero é preciso se diferenciar. Como podemos querer nos diferenciar de algo que está em nós, que faz parte das nossas raízes? Como podemos ter vergonha do que somos?

Em outra aula, na qual eu trabalhava uma temática completamente diferente, um menino chamou outro de angolano, com o intuito de ofender. Ao escutar, perguntei o que ele queria exatamente dizer com isso. Ele me respondeu que o colega (negros os dois, o que "xingou" e o que foi "xingado") era feio e por isso, angolano. Eu respondi a ele que nem todos os angolanos eram feios e que por coincidência, ou não, a mulher mais bonita do universo era angolana. Ele desconhecia o resultado do Miss Universo e eu disse a ele que a vencedora havia sido uma angolana. Ele fez cara de espanto e lançou a pergunta: "as angolanas são bonitas?".

Sim W. É uma pena que não tenham dito para você, mas as angolanas também podem ser bonitas.


Leila Lopes, angolana eleita Miss Universo 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Mais uma vez, a África.


Fonte da imagem: http://doolharnegro.blogspot.com/2011/05/25-de-maio-dia-da-africa-e-celebrado-no.html

Ao iniciar o ano letivo, em uma aula inaugural para toda a rede municipal, transmitida pela Multi-Rio, a Secretária de Educação afirmou, mediante uma pergunta de uma professora da rede, que trabalharia para a implementação em toda a rede da lei 10.639. Eu assisti a essa aula inaugural na antiga escola em que trabalhava e não pude deixar de transparecer o meu descrédito, que foi compartilhado com uma colega de Língua Portuguesa que é muito ligada às literaturas africanas por ser essa a temática de sua pesquisa de doutorado.
Achamos que a secretária, na ocasião, estava falando isso apenas porque África é o assunto da moda e para se livrar da pergunta. Achamos que no meio de tantas demandas e urgências, a África ficaria, mais uma vez, esquecida.
Qual não foi minha surpresa ao receber por meio da escola o convite para a mesa “Imagens do Brasil: Relações Étnico-raciais, Diversidade, Multiculturalismos” realizada na última terça-feira, dia 23 de agosto, no centro da cidade.
Curiosa, me dirigi para lá sem saber muito bem o que esperar.

Bem, era uma mesa nos moldes acadêmicos. Muita reflexão, pouca aplicabilidade. O que eu aprendi lá muito me serviu para pensar a minha provável futura pesquisa, mas não ajudará muito na minha prática docente. A minha prática docente e o conhecimento que tenho de História da África só caberá a mim mesma melhorar. Mas essa iniciativa já é um começo, né? Quem sabe...

Eu tenho uma afeição especial pela História da África. Na faculdade achei um absurdo descobrir que a história do continente não era disciplina obrigatória. Peguei o que podia como eletiva. As pesquisas me levaram por outros caminhos, mas a África, ou melhor, as Áfricas sempre estiveram em meus horizontes. Quando estagiava no Cap, por meio do empenho e do exemplo da professora Mônica Lima, especialista e militante do ensino de História da África desde muito tempo, aprendi a gostar ainda mais de estudar o continente.

Entretanto, ainda sou uma iniciante no assunto.

Certa vez, ao postar o link da coleção História Geral da África (disponível na íntegra para download nos sites do MEC e da UNESCO ) um colega historiador me disse que não sabia da existência de uma obra tão extensa sobre História da África. Ele disse na ocasião que achava que dava para twitar essa história. Exageros à parte, realmente ainda existe muita coisa por fazer. Existe muito material legal na internet para os professores que querem entender um pouco mais sobre as temáticas relacionadas à África. Com um pouco de cuidado sempre, é possível fugir da folclorização e da simplificação que marcaram e ainda marcam o nosso imaginário sobre a África.

Existem muitas formas de inserir a África na nossa história. Reconheço que falta um pouco de boa vontade por parte dos professores também.
Já compartilhei com vocês a alegria e estarrecimento que uma aluna me causou ao me questionar onde estavam os negros na História que eu ensinava. As próximas aulas que darei na turma dela serão sobre História da África. Volto para falar sobre elas aqui e para mostrar o material legal que levantei e as atividades que podem ser feitas.

M... essas aulas serão para você.