terça-feira, 14 de maio de 2013

As múltiplas faces de Tiradentes

Sempre achei que a matéria do oitavo ano é a mais complicada de se fazer entender para as mentes adolescentes. A começar pela temática do Iluminismo: o que se vê é um desfilar de ideias que a meu ver, para os estudantes não têm o menor sentido. Ainda mais, porque quase nunca contamos com os recursos necessários para tornar a história mais atraente.
Há pouco tempo estive em Ouro Preto, em Minas Gerais e adoraria poder falar de mineração no Brasil mostrando as antigas minas de ouro, as igrejas, os museus. Entretanto, não nos é possível nem ir ao Palácio Tiradentes, que fica aqui no Rio de Janeiro, mesmo. Sobram problemas como falta de transporte, de verbas e faltam soluções viáveis para tornar os passeios realidade.
Como então, fazer os alunos entenderem a Inconfidência Mineira? Muitos dos meus alunos não sabiam nem quem foi Tiradentes, alguns já tinham "ouvido falar" e sabiam apenas que era "comemorado" o seu "dia" com um feriado.
Assim, precisava primeiro apresentar a eles essa figura que como nós historiadores bem sabemos, é controvertida. Sua imagem como herói e mártir foi construída muito tempo depois de sua morte, no período da República. Não foram preservados registros fidedignos de sua aparência, o que deu margem para diversas representações da mesma.
Pensei que apenas mostrar imagens diferentes de Tiradentes não prenderia a atenção dos alunos. Buscando inspiração em uma aula sobre Inconfidência Mineira consultada no Portal do Professor (http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=26388) e o material produzido pela Revista de História da Biblioteca Nacional (http://www.revistadehistoria.com.br/naescola/tiradenteseoaltar.pdf) tive a ideia de apresentar aos alunos de maneira diferente as "múltiplas faces de Tiradentes".

Descobri na internet alguns sites que fazem quebra-cabeças a partir de qualquer arquivo de imagem do seu computador. Os sites são esses:

http://www.efeitoespecial.com.br/efeito-especial/quebra-cabeca.php

http://www.scrapee.net/criar-quebra-cabeca.htm

Assim, consegui quatro imagens "quebradas" de Tiradentes. A ideia era separar os alunos em grupos e deixar que colassem os quebra-cabeças na cartolina e depois que cortassem e montassem os mesmos.

As imagens ficaram assim:








Juntamente com cada imagem "quebrada" eu distribuí também a "solução" em tamanho menor. Os alunos se empenharam bastante na montagem dos quebra-cabeças.







Por meio dessa atividade consegui explicar a associação da imagem de Tiradentes à de Jesus Cristo, como na última imagem dos quebra-cabeças e a exaltação de sua figura promovida a posteriori. Expliquei também que como não existia fotografia na época, não se sabe exatamente como Tiradentes foi, uma vez que todas as figuras que eles estavam montando foram produzidas posteriormente. Consegui fazer os alunos entenderem de certa forma que imagens nem sempre representam a realidade e que pessoas e coisas podem ser alvo de mitificação e se tornarem símbolos, adquirindo uma importância que não tinham em sua época. Dito tudo isso, pude falar de Inconfidência Mineira colocando Tiradentes em seu "devido lugar". 


domingo, 2 de dezembro de 2012

Diálogos sem Fronteiras: educação, história e interculturalidade

Olá gente! Hoje eu não estou aqui para falar das minhas invencionices em sala de aula, mas para divulgar um produto do meu outro lado, o de pesquisadora. Acho que as duas coisas são indissociáveis. Pelo menos, no meu eu.  Não me vejo pesquisadora apenas, ou professora, apenas. Sei que são coisas diferentes, mas gosto muito de ser as duas.

Quem pertence ao mundo acadêmico sabe que o nosso trabalho, produzido de forma solitária, é divulgado para os pares por meio de textos que soltamos e deixamos voar livres por aí. Quando fazemos isso, eles já não nos pertencem apenas, mas estão disponíveis para serem apropriados ou criticados.

Publiquei um capítulo, resultado de minha disseração de mestrado, em um livro coletivo chamado "Diálogos Sem Fronteiras". A ideia do livro era  divulgar trabalhos que estão no limite entre as áreas de História e Educação, como o meu. Fica aqui registrado o meu agradecimento aos organizadores Jussara Pimenta, Aires Diniz, Thales Pimenta e Aline Santos Costa.

O livro está em fase de pré-lançamento no site da Editora CRV. Por favor, divulguem a quem possa interessar.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

As maquetes do 6.º ano

Todo professor que mereça tal título fica muito animado quando consegue mobilizar os seus alunos em prol de um trabalho. Desde que entrei para dar aulas na Rede Municipal de Ensino que uma das minhas vontades era fazer um trabalho bem prático com os meus alunos, um trabalho de maquete. Mas vá colocar isso em prática... Experiências anteriores e tentativas frustradas me mostraram que o momento ainda não chegara. Talvez não estava preparada para coordenar um trabalho desses ou as turmas que pegara até então não tinham o perfil desse tipo de trabalho. Sim, a turma tem que ter motivação também, senão o trabalho acaba inviabilizado por falta de material, ou mesmo por falta de vontade de fazer um trabalho bem feito.
Esse ano peguei uma turma de 6.º ano e senti que daria para fazer o trabalho com eles. Eles são bem pequenos e por isso, ainda se motivam com trabalhos práticos.
A primeira etapa do trabalho foi a escolha pelos grupos de um assunto que trabalhamos ao longo do ano letivo. A ideia é que as maquetes fossem o fechamento e a avaliação do que os alunos aprenderam ao longo do ano. Assim, poderia perceber o que eles entenderam sobre a importância dos rios, as atividades econômicas, a construção de cada espaço, em cada tempo que estudamos e sua capacidade de se organizar para dar conta de um trabalho que demandava planejamento e esforço. Assim, propus cinco assuntos estudados ao longo do ano: Pré-História, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga e Roma Antiga.
A primeira etapa do trabalho consistiu na pesquisa. Nessa etapa, tive ajuda da professora Lúcia da sala-de-leitura, que emprestou os livros paradidáticos e didáticos que os alunos usaram como base para entender melhor as representações geográficas de cada sociedade estudada. Em sala, também tive a ajuda da internet para mostrar aos alunos como poderiam construir suas maquetes e o que era isso, já que muitos nunca tinham feito esse tipo de trabalho.

Os livros abaixo foram usados como material de apoio. Eles já são um pouco antigos, mas contêm imagens muito boas sobre as sociedades em questão. Eles são facilmente encontráveis em sebos e livrarias.






A segunda etapa foi o planejamento do material a ser utilizado e a organização propriamente dita do trabalho. Cada membro do grupo ficou responsável por providenciar esse material e confeccionar as maquetes.
A terceira etapa foi a apresentação para a turma do trabalho realizado.
Eis aí, o resultado:


A pré-história das meninas, com o surgimento do fogo. 


A Mesopotâmia. Vejam se não é o Michael Jackson dentro do Zigurate. 

O Egito com as pirâmides e o Rio Nilo. 


Mais uma do Egito com as múmias e o Rio Nilo feito de gel para cabelo. O tamanho do boneco que representa o faraó se explica pelo fato dele ser o mais importante na sociedade. 

Outra do Egito feito com areia de verdade. 

Mais uma do Egito. Quando eu perguntei se no Egito existia coqueiros, o aluno prontamente me respondeu: É uma miragem, professora! (rsrsrsr)

Roma Antiga com as lutas de gladiadores e corridas de bigas. 

Bem, as maquetes ficaram bem legais e a experiência valeu muito. Pelas caras dos alunos, parece que eles gostaram bastante e ficaram bem satisfeitos com os seus trabalhos. A auto-estima deles melhora muito quando são capazes de perceber o seu potencial e estimulados a dar o melhor de si. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Fragmentos de Roma Antiga

Tenho uma turma terça-feira à tarde que é terrível. Quer dizer, a pauta tem 52 alunos, porque o tempo todo entram e saem alunos da turma. Os que estão comigo desde o início do ano contam-se nos dedos. É uma turma de 6.º  ano (1606) de alunos defasados em idade e aprendizagem e muito indisciplinados. Poucos se interessam por qualquer coisa que eu leve e como fico com eles três tempos de cinquenta minutos na terça-feira, as aulas costumam ser bastante cansativas.
Percebi, entretanto, que eles gostam de trabalhos diversificados e essas aulas rendem mais. O problema é como fazer um trabalho com uma turma que não têm nenhum tipo de material? Comprar tudo? Pegar na escola? Às vezes dá certo, às vezes não.

Como estávamos trabalhando com Roma Antiga pensei em propor um trabalho com mosaico. Dividi a turma em pequenos grupos, consegui emprestado umas tesouras e colas na escola e comprei papel colorido, uma cartolina de cada cor. Dividi o papel dando um pedaço de cada cor para cada grupo.

Expliquei que o mosaico é uma técnica muito antiga produzida com pequenas pastilhas de cerâmica ou pedrinhas que são dispostas para formar uma imagem maior. Disse que os romanos antigos, que estamos estudando, gostavam muito da técnica e a usavam para decorar ambientes. Mostrei alguns mosaicos romanos, como os que estão abaixo:

Mosaico do Império Romano em Vichten, em Luxemburgo, representando Tália, a musa da comédia

O poeta romano Virgílio (Século III)
Entreguei alguns desenhos para os grupos retirados desses sites: 




Expliquei que eles deveriam a partir daqueles desenhos produzirem mosaicos. 

O resultado foram esses  mosaicos produzidos pelos meus romanos: 
A lenda da fundação de Roma ganhou novos contornos, pois mesmo que Rômulo e Remo fossem gêmeos, um era branco (ou rosa) e o outro negro (rsrsrs)


 As classes sociais. Repare no chapéu do plebeu!

Um autêntico capacete de soldado romano todo em ouro e prata. 



O Coliseu. 

O gladiador pronto para combater dentro dele. 


Dois modelitos usados pelos soldados romanos. 
 As residências romanas. 

Acho que os trabalhos ficaram muito bons. Acho que eles aprenderam muito com os mosaicos e gostaram de fazer. Pelo menos, achei que se envolveram com o trabalho. 







A África de Kiriku

Bem, o fim do ano chegou. Novembro veio e o blog anda meio abandonado. Muito a fazer e pouco tempo. Aulas para dar, provas para corrigir, cursos para montar, estágios para organizar, uma bolsa de pesquisa a se conseguir, apartamento para reformar, prova da autoescola para passar... Enfim... Estou aqui aproveitando o feriado para tentar colocar em dia as postagens, pois não escrevia desde setembro. Sempre é tempo para se corrigir.
Hoje vou falar para vocês de um achado sensacional, capaz de prender a atenção até mesmo das turmas mais terríveis (como mostra a experiência da professora Ana Lúcia, da sala de leitura da escola). Estou falando do desenho "Kiriku e a feiticeira".
Em maio/junho tive que dar aula de África negra antes da chegada dos europeus para os alunos de 7.º ano. Não sabia muito bem o que fazer para aproximar os alunos dos conteúdos. Já mostrei aqui como fiz no ano passado para familiarizar os alunos com a ideia de África, mas sentia que necessitava fazer algo diferente com essas turmas de alunos mais novos e mais imaturos.
Me incomoda um pouco a forma com que os livros didáticos abordam a África antes da chegada dos europeus, mostrando o Império do Mali e o Reino do Congo. Acho que a ideia é a seguinte: se estudamos a história política europeia, os seus reinos e impérios,  por que não fazer o mesmo com a África?
Acho importante mostrarmos que na África existiam reinos, impérios, mas acho que isso fica muito distante do cotidiano dos nossos alunos. Me sinto mal quando falo da formação dos reinos ibéricos porque acho que não faz o mínimo sentido para eles. Por que com o Reino de Mali e do Congo seria diferente? Precisava de um plano B se quisesse mostrar para eles a importância das histórias na África, o valor que eles dão aos idosos, o modo de vida em aldeias, as vestimentas, enfim, se quisesse aproximar os alunos de pelo menos parte da cultura das Áfricas.
Já conhecia "Kiriku e a feiticeira" e resolvi passar o filme inteiro para eles antes de qualquer discussão. E foi muito produtivo. Todos prestaram a maior atenção. Eles A-D-O-R-A-R-A-M! Não imaginei que um filme com uma história assim, tão diferente dos clássicos da Disney ao qual eles estão acostumados, pudesse fazer tanto sucesso.

Discutimos pontos fantasiosos da história, como o fato do menino nascer falando ou crescer tão rapidamente. Mostrei a eles que o filme foi inspirado em uma lenda africana e que as lendas podem trazer elementos fanstásticos ou mágicos. Achei que o filme também seria importante por mostrar um heroi que foge dos padrões tradicionais, pois é um menino pequeno e negro e uma feiticeira má por conta das circunstâncias às quais foi submetida e não por essência.

Em seguida pedi para eles observarem a aldeia de Kiriku, as vestimentas, a importância da água para as pessoas que viviam nela. Pedi também que escrevessem qual a lição que eles achavam que era principal no filme. Reproduzo abaixo alguns trechos do que eles escreveram (CUIDADO, SPOILERS!):

"A lição que o filme traz é que grandes ou pequenos, nós podemos ajudar."
M. (turma 1702)

"Uma mulher da tribo tem um bebê muito pequeno que ajuda as pessoas para elas não serem pegas pela feiticeira. Todos têm medo da feiticeira, até que Kiriku quis descobrir porque ela era má. Ele descobriu que ela era assim, pois tinham fincado uma estaca nas costas dela. Ele foi até lá e conseguiu arrancar a estaca e ela ficou boa. A feiticeira beijou Kiriku e ele cresceu. Eles viveram felizes para sempre."
 G.L. e M. R. (turma 1702)

"Para eles a água eram importante para fazer suas tarefas e suas necessidades. Exemplo: tomar banho e fazer comida."
R. e S. (turma 1702)

"As casas são de palha e parecidas com as dos índios, só que mais finas"
R. e J. (turma 1702)

Esse blog traz cenas do filme para colorir.

http://solangepedag.blogspot.com.br/2009/09/cenas-do-filme-kiriku-e-feiticeira-para.html

O filme Kiriku foi interessante para introduzir o conteúdo de África de uma forma lúdica e mais próxima dos alunos. Deixei uma cópia do filme na sala de leitura e a professora usou com uma turma de 7.º ano  muito agitada da tarde. Ela disse que os alunos ficaram hipnotizados. O filme é bom, a diversão é garantida e com um trabalho bem feito pode servir como uma ponte entre os alunos e aspectos da cultura africana.

Não custa tentar, pois como diz um ditado africano: "É tentando muitas vezes que o macaco aprende a pular da árvore". (LOPES, Nei. Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2005, p. 67 Apud BOULOS, Afredo. História, Sociedade e Cidadania. 7.º ano. São Paulo FTD, 2009. p. 72)

sábado, 1 de setembro de 2012

Os índios só existiram no Brasil até 1500?

Conversando com a minha irmã, que é professora de educação infantil nos questionávamos por que nas séries iniciais do ensino fundamental os povos indígenas eram sempre retratados no Dia do Índio de forma estereotipada e simplificadora, como se existisse uma essência, uma imagem que dissesse respeito a todos os povos indígenas brasileiros.
Essa visão é ainda hoje muito divulgada por produções culturais voltadas para o público infantil. Tipo, a música "Brincar de índio" da Xuxa.


Qual não foi minha surpresa ao preparar uma aula sobre os povos indígenas do Brasil e perceber que muitas das ideias sobre o índio que nos foram ensinadas nos primeiros anos da escola ainda permanece no "coração" e nas "mentes" das pessoas. Não é à toa que os pesquisadores de ensino de História são veementes em afirmar que as interpretações veiculadas nos nossos anos de escolarização nos acompanham por muitos anos.

Percebi isso ao ver o vídeo da TV Escola "Índios no Brasil - Quem são eles?". Ao serem perguntados sobre os índios no Brasil, as pessoas veiculam preconceitos ainda muito difundidos (embora o vídeo seja da década de 1990): "que vivem nas matas", "caçam", "pescam", "são preguiçosos", "são selvagens, quase bichos", "não existem mais", "o índio quando sai de sua tribo deixa de ser índio".

Para trabalhar com os meus alunos de 7.º resolvi partir desse vídeo e identificar as visões essencializadas mais comuns sobre os índios. Pedi que me dissessem antes da exibição do vídeo o que eles sabiam sobre os índios no Brasil. Muitas das visões dos alunos eram bem parecidas com as visões veiculadas no vídeo.



Um dos trechos mais interessantes é quando é perguntado a uma menina com claras feições indígenas se ela era índia e a resposta é negativa. Entretanto, quando é perguntado a ela o que ela é ela não sabe responder.
Fizemos um debate em torno das questões vistas no vídeo: Se um índio sai de sua tribo e vai viver na cidade, ele deixa de ser índio? Os povos indígenas desaparecerão no Brasil? Engraçado perceber como os estereótipos ainda têm força.

Trabalhei com os alunos o material de um suplemento da revista Recreio sobre algumas das etnias indígenas que  vivem no Brasil.

O material foi disponibilizado nesse blog: 
http://escola-zezito.blogspot.com.br/2009/04/19-de-abril-dia-do-indio.html

E com a música "Pindorama" do grupo Palavra Cantada. 



Uma das coisas que mais me incomoda na forma como os indígenas são tratados é que eles são mostrados com uma ingenuidade e incapacidade intrínsecas. Mesmo a explicação recorrente da substituição da mão-de-obra indígena pela africana se fez durante muitos anos baseada na inadaptabilidade (essa palavra existe?)  do indígena ao trabalho pesado nas lavouras de cana. Essa visão do indígena como um ser retrógrado, incapaz, que deve ser protegido ainda persiste nos dias de hoje, como mostram algumas visões presentes no vídeo. Os índios fazem parte da natureza morta e como as árvores necessitam ser salvos.



Lembro que um dos momentos mais marcantes da faculdade de História, foi quando tive a oportunidade de conhecer o livro do antropólogo francês Pierre Clastres, "A sociedade contra o Estado". Na coletânea de textos, Clastres (um anarquista, segundo meu professor de História da América I) afirma que a sociedade civil pode prescindir da figura do Estado e para demonstrar a sua tese analisa a experiência de povos indígenas da América do Sul. Para o autor, as sociedades indígenas não seriam menos evoluídas por não contarem com a presença de um Estado centralizado. O autor vai ainda mais longe ao afirmar que as sociedades indígenas possuem mecanismos culturais que impedem o aparecimento de figuras de chefias com poder concentrado. Nesse sentido, tais sociedades não estariam em um "processo de evolução" que favoreceria o aparecimento de um estado, mas estariam quase conscientemente "contra" o aparecimento desse Estado, uma vez que ele não apresentaria uma evolução e sim o contrário.

http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/ObraSinopse/10654/A-sociedade-contra-o-Estado.aspx

Assim, ao pensar em conteúdos que poderiam simplificar essa visão para os alunos e mostrar que os indígenas não necessariamente estão em uma escala evolutiva inferior, me lembrei de um projeto desenvolvido pelo professor de História do meu irmão (que hoje tem 22 anos) sobre a cosmologia do povo indígena Kalapalo.

O projeto foi desenvolvido pelo professor César Lemos e apresentado na I Feira de Ciências da Fundação
Planetário e da 2ª Coordenadoria Geral de Educação no ano de 2003. O trabalho mostrou por meio do estudo da visão de mundo dos indígenas Kalapalo que os índios podem sim, criar ciência.

Segundo o aluno  Douglas Galeno do Vale, na época com 13 anos, monitor da exposição ocorrida em 2003 e orgulho da mana, “Há tribos que fazem ciência ao investigar, por exemplo, que tipo de árvore (casca) se adequa à construção de uma canoa. Eles investigam e criam a tecnologia ao produzir a embarcação”. Outra aluna participante do projeto afirma: “Foi bacana perceber que ciência não é só tecnologia. Há várias maneiras de se fazer ciência e muitos temas que inspiram uma investigação científica”.

Maquete do projeto "O céu dos índios Kalapalo"

A experiência completa do trabalho sobre os índios Kalapalo, bem como os outros projetos que foram destaque da mostra pode ser acessada aqui: http://portalmultirio.rio.rj.gov.br/portal/_download/revista17.pdf

O importante, é encontrar jeitos de mostrar para os alunos que os indígenas são capazes de produzir conhecimentos válidos. Eles são capazes de pensar, de refletir e de agir sobre o mundo que os cerca. Eles não são apenas um dos elementos exóticos integrantes da nossa nacionalidade. Eles não estão apenas no passado e as recentes questões em torno das demarcações das terras indígenas são uma prova de que os índios são mais que capazes de agir e lutar pelo que é seu por direito. Afinal, eles além de indígenas, também são brasileiros.

sábado, 25 de agosto de 2012

Quadrinhos, melhor não lê-los em sala...Mas se não lê-los, como sabê-los?

Gente, uma das minhas maiores frustrações é que eu simplesmente ADORO quadrinhos, mas nunca consegui passar de forma satisfatória para os meus alunos essa minha paixão. Certa vez, quando dava aula de CEST para o sétimo ano (era para ser reforço de Português e Matemática, mas o que eu fazia mesmo era discutir valores) resolvi passar o filme "Escritores da Liberdade",  como eles se interessaram pelo filme, resolvi abordar mais a fundo a temática do Holocausto. Para isso, me utilizei de fragmentos do livro "O Diário de Anne Frank" e da história em quadrinhos "Maus: a história de um sobrevivente", de Art Spiegelman. Maus, que significa "rato" em alemão é a história de um judeu polonês que sobreviveu no campo de concentração de Auschwitz. Art, autor do quadrinho é filho desse judeu, chamado Vladek Spiegelman e ganhou vários prêmios, como o Pulitzer, feito memorável para um livro de quadrinhos. Mas, mais do que os prêmios que o fizeram famoso, Maus é um quadrinho psicológico, que tem um estilo sujo e uma das maiores graças (se é que pode haver alguma graça em tratar do Holocausto) é a representação dos personagens como animais: judeus são ratos, nazistas são gatos, norte-americanos são cães, poloneses são porcos e franceses são sapos.



Achei que eles iam gostar, mas não gostaram. Acharam chato, acharam os desenhos feios. Não entenderam a proposta. Na época, como professora iniciante, não fui atrás das causas do insucesso, mas hoje, pensando bem, acho que os alunos não estão acostumados a esse formato de história em quadrinhos mais sombrio, herdeiro das HQs norte-americanas, estilo Marvel e DC Comics. Como eu disse, não há como tratar do Holocausto de forma cômica e esse é o maior mérito de Maus. Mesmo sendo um quadrinho, consegue passar toda a angústia e os questionamentos vividos pelo personagem, que não consegue entender toda a avareza e rabugisse do seu pai. É impossível ter vivido a experiência de Auschwitz sem ficar com marcas indeléveis.

No Brasil, as produções mais famosas no gênero são infantis e cômicas (vide Maurício de Souza e Ziraldo). Não conheço nenhum quadrinho brasileiro que seja no estilo "Maus". Mas ainda assim, gostaria de tentar mais, de buscar outras formas de trabalhar com os quadrinhos, de trabalhá-los em sala como gênero textual.
Estou pensando em trabalhar novamente com Maus e com "V de Vingança", dessa vez com o 9.º ano. Estou novamente enfrentando o tema do Holocausto e quem sabe com alunos mais velhos a ideia não vinga?

Acredito que "V de Vingança" tem potencial para dar ideia aos alunos dos regimes totalitários. Os alunos conhecem a história por causa do filme lançado em 2006. Seria ótimo poder fazer um contraponto entre as duas linguagens, mas a escassez de tempo atrapalha. Além disso, a popularidade da máscara de Guy Fawkes em protestos recentes pelo mundo afora, parece ótima para mobilizar os alunos em torno de temáticas como a cidadania e a consciência política agora em tempos de eleições.



Vamos ver o que consigo fazer. Como sugestão, deixo aqui alguns links de História em Quadrinhos que podem ser utilizadas para trabalhar temáticas no ensino de História.

Abaixo, uma sequência didática elaborada pelo LEMAD, Laboratório de Ensino e Material Didático da USP que dá sugestões de como trabalhar a atuação dos Estados Unidos nas guerras, no século XX, a partir dos quadrinhos:

http://lemad.fflch.usp.br/node/1650

Nesse caso, são utilizadas as HQs do Capitão América, Super-Homem, entre outras.

A Proclamação da República contada pela simpática Turma da Mônica. Acredito que essa tem potencial para despertar o interesse dos alunos, uma vez que já é uma HQ conhecida deles.

http://emefmiguelcouto.blogspot.com.br/2011/11/proclamacao-da-republica-em-quadrinhos.html

Quadrinhos disponíveis para download sobre várias temáticas e tempos históricos.

http://historianreldna.pbworks.com/w/page/49091100/HIST%C3%93RIA%20E%20QUADRINHOS

Histórias em quadrinhos têm potencial para transformar as aulas em momentos mais divertidos, só não sei ainda como utilizar essa ferramenta de forma mais satisfatória. Se alguém quiser experimentar e contar sua experiência aqui, o espaço é aberto. Por ora, espero que divirtam-se com os quadrinhos indicados. Asseguro que vale à pena!